Tubo de ensaio: Dois estilos de Bordeaux diferentes.

Foto: Karen Ferrari

Depois de se habituar a colocar o nariz em todas as taças de vinho que aparecem pela frente, é impressionante a capacidade do cérebro de perceber rapidamente a personalidade de algumas regiões.

Foi assim a degustação que fiz que com um grande amigo, também amante dos vinhos. Foram dois rótulos de Bordeaux:

1. Chateau Mazeau 2009, Bordeaux Appellation Bordeaux Contrôlée, que significa que possui o “atestado” de obediência aos padrões da região de Bordeaux, como um todo, de forma mais ampla.

2. Chatau Les Barraillots 2008, Appellation Margaux Contrôlée, que significa que que possui o “atestado” de obediência aos padrões de uma sub-região de Bordeaux: Margaux, de forma mais específica. (Sim, lá onde fica o famoso Château Margaux).

Vale ressaltar que nenhum desses rótulos estão no topo da pirâmide dos Grand Crus, mas não deixam de ser delicioso e de conter as características de Bordeaux em seu DNA.

Vamos por partes à experiência para entender melhor sobre os bordaleses:

1. “Hummm… Os dois têm aroma de Bordeaux. Bordeaux é sempre Bordeaux”.

Foi esse o comentário de ambos ao inalar as duas taças. Para ser um verdadeiro Bordeaux, em linhas gerais (para não dificultar) os vinhos precisam ser feitos a partir de três castas (uvas): Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot. Isso, somado à cultura de produção dos vinhos da região faz com que os Bordeaux tenham uma identidade perceptível ao nariz.

2. “Nossa, como são diferentes. O segundo (Margaux) tem mais cara de Bordeaux”.

Depois de experimentar ambos os rótulos, essa foi a nossa percepção.

Isso aconteceu porque Bordeaux é uma região muito recortada, com mar à esquerda, um grande rio, o Gironde que desce do norte para o sul se dividindo e formando os rios Garone e Dordogne. Essa geografia faz com que os terroirs variem bastante e, consequentemente, os vinhos também.

O primeiro vinho, Chateau Mazeu, apresentou muitas frutas vermelhas e um pouco de especiarias. Na boca as frutas se repetem em forma de sabor. A acidez e o álcool são um pouco mais pronunciados no tripé que pressupõe o equilíbrio entre acidez / taninos / álcool. Apesar disso, deliciosas harmonizações com carnes mais gordurosas, por exemplo, podem ser feitas.

O segundo, Chateau Les Barraillots, mostrou suas notas de madeira sem exagero, frutas maduras, até um leve couro. Ao beber, a impressão é de que o vinho se amplia tomando conta de toda a boca. Um vinho grande. Com mais acidez e mais taninos que o anterior, parece menos alcóolico apesar da diferença entre um e outro ser de apenas 1%vol. Isso acontece em função da integração desses elementos. Um vinho mais equilibrado e com um estilo mais similar aos clássicos de Bordeaux (com as frutas menos pronunciadas).

Há também uma outra questão: Normalmente vinhos mais jovens tendem a expressar as notas de frutas de forma mais intensa. Mas nesse caso, acredito que a diferença trata-se de uma questão de estilo e não de envelhecimento.

A pergunta que não quer calar: Qual é o melhor? Depende. Ambos são deliciosos, cada um com sua beleza e estilo. Isso depende da situação de consumo e do paladar de cada um. Vi beleza em ambos.

Complicado, não? Bienvenue à la france! Compreender os vinhos de lá não é uma tarefa fácil, mas o desafio é delicioso. A dica é essa: abra mais de uma garrafa simultaneamente para fazer comparações e não esqueça de olhar o mapa, para checar as diferentes localizações.


Leave a reply

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.